terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Dona Leica – Parte I 


Texto de Raimundo Colares Ribeiro


Rua Olavo Bilac (década de 1960),
Tefé – Amazonas.

Imagem/Crédito: biblioteca.ibge.gov.br


Às vezes fico a imaginar e vejo-me em tempos distantes, tempos de criança, esquentando o motorzinho – fazia isso girando com velocidade o braço direito em sentido horário e emitindo o som do “rum... rum... rum...” –, saindo, em seguida, correndo em disparada, de braços abertos, pelas ruas de Tefé, de um lado para outro, tipo aviãozinho, tal qual, como num dia desses, nas Olimpíadas de Atenas, vimos fazer o maratonista brasileiro Vanderlei de Oliveira. Meus queridos e saudosos pais riam pra valer, divertindo-se muito com aquela brincadeira inocente de menino.

Com o motorzinho quente, preparado estava para voar com as asas da pureza e dos sonhos infantis. Saía de casa, saltava da calçada, pés no chão, percorria a Olavo Bilac, entrava na Praça Getúlio Vargas (atual Túlio Azevedo), dava uma volta completa no monumento em homenagem ao grande presidente e acenava para o Seminário São José.

Praça Getúlio Vargas (década de 1960),
em frente ao Seminário São José,
Tefé – Amazonas.

Imagem/Crédito: biblioteca.ibge.gov.br


Descia a Duque de Caxias com os olhos postos no lago (que lago!!!), passava pelo Mercado Municipal, pela loja do senhor Jorge Rezala, representação da Companhia Aérea Cruzeiro do Sul (Sr. Onésimo Padilha), casa da família Retto (Armando e Ana, minha madrinha de Primeira Comunhão), Capelinha Bom Jesus, consultório odontológico do Dr. Moacyr Gama, residência da professora Irinéa Cáuper, pelo escritório da Panair (Sr. Miguel), casa do senhor Antônio Pessoa, restaurante da dona Soraia, ainda olhando para o lago (que lindo lago!!!), dobrava à altura da Serraria Braholco, à direita, e, de imediato, notava a moradia dos pais do Raimundinho e da Balbina, o lar da tia Maria Alves, do senhor Levindo Braga, chegando à Olavo Bilac, quando acelerava ainda mais o motorzinho, só parando ao aproximar-me do Comércio Agá-Erre – assim era o nome da mercearia do meu pai –, na esquina da Travessa Bom Jesus, completamente exausto, com o coração batendo forte e apressado. Achava extremamente longo esse trajeto.

Da Olavo Bilac daquele tempo, mais precisamente dos anos de 1964-1965, algumas residências me fogem da memória, porém, não contemplava esse caminho sem antes passar pela barbearia do senhor Pedro Freitas, onde mamãe levava-me periodicamente para cortar os cabelos, avistando em seguida o domicílio do senhor Poli Batalha, que se avizinhava ao do senhor Eduardo Sá. Mais adiante, estava a residência do senhor Carlos Gama, que ficava de frente à habitação do senhor Corinto Façanha, em terras que faziam limites com as de nossa casa.

Na época, as ruas não eram calçadas, predominando a terra gramada. Em frente da nossa casa, pela Bom Jesus, ao lado da Escola Estadual Eduardo Ribeiro, nós, os curumins “fominhas de bola”, fazíamos do local um pequeno campo de futebol. Era, na verdade, um lugar bem coberto de grama e adequado para a prática desse esporte tão conhecido pelos brasileiros e, por isso, tantas vezes campeões mundiais. As partidas eram bem disputadas e só terminavam ao entardecer, após as badaladas dos sinos da Matriz de Santa Teresa.

À noite, os adultos colocavam cadeiras nas calçadas de suas casas e ficavam conversando até altas horas, enquanto nós, crianças, aproveitávamos para contar estórias e brincar de roda, cantarolando eternas cantigas, tal como a inesquecível:

Fui no Tororó
beber água não achei
Achei linda morena
Que no Tororó deixei
Aproveita minha gente
Que uma noite não é nada
Se não dormir agora
Dormirá de madrugada


Brincadeira de roda

Imagem/Crédito: portaldoprofessor.mec.gov.br

O luar majestoso era o nosso maior aliado. Impressionante como conseguíamos, os meninos e meninas, ficar acordados noite adentro. Mas, também, havia aqueles que, não resistindo ao cansaço, acabavam dormindo profundamente sobre o tupé estendido em frente da sua casa. Muitas vezes, cheguei nessa condição, mas com a cabeça recostada sobre o colo da minha querida mãe.




Dona Leica, em 1995, com os netos Rickson,

Raissa e Rennier Recco

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